quinta-feira, 26 de março de 2009

No silêncio de mim


Arde em minhas mãos um poema de paixão, tranco a porta, escondo o turbilhão, mas no afago do meu coração só me resta um oceano solidão. Um raio de sol não se pode arrumar numa caixa de papelão, a letra que rasgaste é grito solto no silêncio desta ilusão.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Entre a espada e o destino


Era manhã.


De tuas mãos, rasgavam-se os sons de uma viola; trazias as promessas de uma cartola escondida numa sacola. Mas, ao longe, ao compasso do teu passo, ouvia-se o batuque de um pedaço de aço, reparei que, entre um traço e um estilhaço, surgia a figura de um triste palhaço com o coração de aço.

Um frio intenso tornou o ar denso, um manto de espanto cobriu a terra de pranto, em nenhum canto ficou um pouco de encanto. Um arco-íris apagado desfez-se no vento molhado, um sorriso rasgado perdeu-se numa lágrima que me tinhas segurado... por vezes, a tristeza é esta estranheza, apenas aquilo que fica do desatino entre a espada e o destino.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A mim, bastava-me...



...a ternura de um olhar que roubava ao teu inquieto procurar.

Amar-te era um verbo feito de coisas pequenas, um pedaço de esperanças no regaço de mil lembranças, um instante de vontade numa taça de ardente saudade, uma aurora adormecida na promessa de outrora, uma simples palavra riscada à espera de ser apagada.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Revelação



Naquela noite fria e escura, entreguei o sonho à loucura e já despida de toda a ternura, parti perdida à tua procura.

Descobri que ao fundo da rua, havia uma casa que diziam ser tua. Quatro paredes nuas, uma porta sem fechadura, sete luas a fingir de cobertura.
Lá dentro, junto à lareira, rimavas uma história que um dia foi verdadeira. À luz de uma candeia, um verso solto perdia-se na poeira, uma palavra escondia-se na tua algibeira...

Hoje sei que o teu poema era feito de meia dúzia de promessas, algumas rasgadas na bruma; a tua casa... apenas mais uma; tu... uma estátua que esculpi na espuma!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Um punhado de palavras

Encostei um punhado de palavras proibidas, daquelas que nunca te disse por serem sabidas, à sombra de uma roseira, veio o vento e sentou-se à minha beira:

-Porque choras dessa maneira?
As lágrimas não fazem crescer as flores e as flores não brotam de tantas dores. O canteiro que semeaste é feito de poucas cores, uma tela escura, duas pinceladas de amargura e um traço de ternura.

Um arrepio cobriu a terra de frio e nunca mais se ouviu um pio...

Colhi gota a gota o sorriso que tinha perdido, e com um ar contido, depositei no sopro do vento tudo o que me tinhas prometido.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Voar cansa


Por detrás do sol, perto da escuridão, há uma sombra que procura o teu chão. Voar também cansa, o sonho tem a brevidade de uma ilusão, a magia é apenas um instante.
Devolve-me o cheiro a terra molhada, aconchega-me às pedras frias da tua calçada, deixa-me ser o sol que procuras, a mão que te alisa o cabelo, a voz que te espera ao fim do dia…

sábado, 13 de dezembro de 2008

Sinto-te


Um bater inquieto acorda a cotovia, há um coração agitado ao compasso da tua procura. Um grito apagado lembra o teu querer, sentir-te é uma dádiva dos deuses ou um privilégio dos bem amados. Não há silêncio quando os pássaros se calam, não há quietude quando o vento deixa de soprar, a escuridão é um caminho que se percorre com o coração.
Voa a cotovia perdida na planura deste vazio. Nesta terra árida e nua, o arrepio do teu sentir é fonte de vida.